30.4.12

Crônica da janela do meu quarto


Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense



Em menos de um mês, através da janela do meu quarto, pude presenciar – não foram exatamente boas oportunidades – três cenas de violência em um bairro de classe média de Florianópolis. Era como se a janela, por um momento, passasse a ser uma enorme televisão ligada em algum noticiário policial ou mesmo no jornal das oito. A vida imita a arte...

Na primeira delas, um rapaz caiu do oitavo andar, três andares acima do meu. Não sei se por acidente ou vontade própria. Quando percebi, na verdade, já havia ambulância, cinegrafistas, muitos curiosos, uma moradora tentando estapear um dos cinegrafistas – ela não queria que o prédio fosse filmado – e uma mulher chorando. A ambulância, pelo que pude perceber, continuou ali por muito tempo, pois já não havia mais motivo pra correr.

Alguns dias depois, às cinco da manhã, no melhor do sono, acordei com o barulho do choque de um carro no poste; e da mesma janela, poucos segundos depois, foi possível acompanhar seis garotos embriagados saindo do carro – seis! – para continuar o trajeto a pé. Parecia parto de coelho. Um deles estava com o nariz sangrando; um segundo parecia bem preocupado; e outro, curiosamente, não parava de rir. “Vai sujar pra nós”, alguém disse. O guincho chegou ao local, segundo um dos porteiros do meu prédio, que é um excelente informante, em torno das onze da manhã.

O mais curioso nesta madrugada foi que, no momento do acidente, quando acendi a luz e olhei da janela, várias luzes de outros apartamentos ao redor também se acenderam quase juntas. Eram provavelmente os mesmos curiosos da semana anterior que, neste caso, ofereciam uma espécie de espetáculo involuntário. Várias luzes acendendo e depois apagando todas sincronizadas. Era bonito. Parecia até um sonho.

A terceira cena, e última, aconteceu na semana passada. No momento em que eu revia a bela vitória do Vasco sobre o Flamengo, do Fantástico, escutei uns gritos desesperados de uma mulher e depois um tiro, mas a coisa não foi tão grave quanto parece. Um rapaz tentou roubá-la, ela reagiu e foi mordida na mão. Os gritos, portanto, foram conseqüência da mordida; e o tiro, disparado por um policial à paisana, foi direcionado para o alto. Quando olhei na janela, a mesma de sempre, meu cineminha real, ainda deu tempo de ver o rapaz desaparecendo na noite – “a fuga do meliante”, diria um repórter policial – e a mulher sendo socorrida por alguns moradores.

Os gritos, aliás, foram ouvidos apesar do barulho de um caminhão de lixo que estava passando pela rua. E a mordida na mão, por sua vez, foi motivo de piada entre alguns vizinhos, que julgaram o assaltante muito amador. Na verdade, os assaltantes amadores são até mais perigosos, pois são inconseqüentes e às vezes ficam mais nervosos do que as vítimas. Por outro lado, os assaltantes mais profissionais, digamos assim, geralmente obtém sucesso no assalto. Outra verdade é que não havia graça nenhuma naquilo.

Mas, afinal, o que há de tão incomum e assustador nestas cenas? Nada. É possível assistir, em qualquer momento, até mesmo na hora do almoço, coisas bem piores na televisão. Pra nós, que estamos nos acostumando a ver imagem de gente sendo morta com 50 tiros de metralhadora enquanto comemos bife com batata frita, uma mordida na mão não assusta nem criança pequena. A diferença é que agora a violência passou a ser delivery. E minha janela, em todo caso, não é uma televisão.

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