Sábado, Julho 18

Luva de pelica

O texto do tapinha com luva de pelica, como queira, foi publicado hoje, no DCultura, aqui. Para os desavisados, já rolou uma discussão - se é que podemos falar assim - em dois posts anteriores. Ainda não vi o jornal impresso e na internet não consegui saber qual imagem o editor usou, de modo que estou curioso. Não sugeri nenhuma, naturalmente.

PS. lembro ainda que, antes mesmo de publicar Um tapinha não dói, aqui no blog, há uma semana, justamente reclamando da ausência de recepção crítica na cidade, o crítico e artista Fabio Salvatti escreveu sobre a performance do ERRO Grupo, texto que foi publicado no Sopro, aqui - e que contradiz meu argumento em parte, já que se trata, é evidente, de uma recepção crítica. A curiosidade é que Fabio não vive em Florianópolis.

Sexta-feira, Julho 17

Um telefonema

[toca o celular, um número estranho, hm, não é normal, atendo]

- alô.

- alô, boa tarde, é o sr. victor?

[fodeu, é a primeira coisa que penso]

- sim, é o sr. victor.

- aqui é do não-sei-o-quê de cultura, ligo a pedido de sr. não-sei-quem pra convidá-lo pra uma reunião sobre o primeiro encontro-tal de cultura de florianópolis, amanhã, às 14h, você pode participar?

[organizo as informações e passa por mim uma vaga sensação de desconfiança]

- jamais ouvi falar algo a respeito do encontro-tal .....
você pode me explicar do que se trata?

- aí já não sei dizer, ligo a pedidos do sr. não-sei-quem


- e você não sabe pra que serve esta reunião? nem os assuntos que serão discutidos?

- sei, não, sr.

- e quem estará nesta reunião?

- o sr. não-sei-quem-um e o sr. não-sei-quem-dois
, até onde sei

- só?

- até onde sei

- estou sendo convidado pra uma reunião com dois srs. sobre um assunto que desconheço, é isso?

- é o encontro da cultura-tal, sr.

- e você sabe porque estou sendo convidado?

- sei, não, sr.


- e você já ouviu falar de mim alguma vez?

- nunca, não, sr.


- hm ......


- posso confirmar sua presença, sr?

- gostaria de falar com o sr. não-sei-quem-um, é possível?

- ele já saiu

- e o não-sei-quem-dois?

- também já saiu

- e o celular deles?

- não tenho permissão pra passar números pessoais, sr.

- então converso com alguém amanhã de manhã

- o expediente é a partir das 14h, sr.

- foda, hein?

- como, sr.?

- nada, não......

- posso confirmar sua presença, sr.?


- é claro que sim, estou curiosíssimo

- até amanhã, sr.

- até amanhã

[logo mais desvendarei o mistério]

Quinta-feira, Julho 16

Então, martela .....

Meu mimo descritivo acabou se invertendo nestes últimos dias: durmo tarde e acordo cedo. Dois motivos: 1) estou muito ansioso com a chegada da bolsa do CNPq, no dia 7 do próximo mês, e então é difícil pra dormir e 2) o apartamento de cima está sendo reformado, os pedreiros martelam geral todas as manhãs e então é fácil-fácil pra acordar. Meu amigo de apartamento, a biba doida emboletada, ontem, até levou um cafézinho com meia dúzia de gotas de Rivotril pra ver se os pedreiros acalmavam, ninguém aguentava mais o barulho aqui embaixo, mas quem diz que adiantou? Segue um vídeo, então, foi o que restou, muuito interessante, que fiz às 8h15m da manhã de ontem:

video

Quarta-feira, Julho 15

Manco [um nome falso]

Na minha rua tinha um vira-latas muito manco e muito conhecido de todos. O vira-latas Manco - ninguém sabia seu nome e nem de onde vinha, por isso passamos a chamá-lo simplesmente de Manco - vivia bagunçando o lixo de todo mundo. Pra resumir a história do Manco: era um tremendo filho da puta. Até que um dia um amigo e eu, a pedido de nossos pais - na verdade, tratava-se de uma negociação, lembro bem, mas isso definitivamente não é importante agora - armamos uma cilada (um pequeno susto, melhor) para que o Manco não revirasse mais os lixos em nossas calçadas. Simples, assim: ficamos atrás do muro e quando Manco apareceu pra revirar as sacolas de lixo então acendemos um rojão cada um e jogamos bem do seu lado. Manco correu, é óbvio. Correu muito, de fato. Saiu batido, como diziam. Mas nossa surpresa foi grande quando percebemos que Manco, agora meio inconsciente, corria sem mancar. Fui falar para o meu pai e ele respondeu meio descrente: o Manco decerto recebia INSS. Manco era um nome falso, afinal.

Terça-feira, Julho 14

Sopro #13



Está no ar a edição #13 do Sopro, aqui - com um texto de Fabio Salvatti sobre a performance do ERRO Grupo, Sobre Bloomsburied e Andy Warhol; um verbete de Severo Sarduy, Fetiche; e outros verbetes de Vinícius Honesko e Jonnefer Barbosa: Intrusos e Negatividade, respectivamente.

A asa do avião [breve diálogo entre um artista jovem e um crítico velho]

- Pô, eu fiz umas imagens assim do avião enquanto subia, sabe? [gesto] e aí eu pegava o céu, tipo, em uns planos contínuos, sabe? [outro gesto] e depois também peguei uns movimentos muuuito loucos das nuvens, uma se fundindo na outra, e mais a asa do avião no meio delas [gesto com as duas mãos] e ainda deu pra filmar em panorâmica assim de cima fazendo miiil giros com a câmera [demonstração] e tudo no mesmo plano-sequência enquanto o avião decolava e o comandante pedia pra desligar os aparelhos eletrônicos, na maior adrena, na real, mas agora não to sabendo o que fazer muito bem com isso, como finaliz....

- Deleta, joga fora.

Segunda-feira, Julho 13

Fazer o mundo-abrigo

Os blogs, como muita coisa, não sobrevivem sozinhos. Por isso é legal quando temos prazer de esticar a conversa em mais um ponto da rede e incluir outro amigo na nossa lista de diários. Flávia Cera, colega da literatura e co-editora da excelente publicação Sopro, aqui, resolveu abrir o mundo-abrigo, aqui, expressão de Hélio Oiticica que não deixa de ser uma metáfora da internet: dispersão e confluência.

Máxima da cultura mané

De graça sai caro.

Domingo, Julho 12

Aforismo

Lavar louça é a psicanálise do pobre

Sábado, Julho 11

Um tapinha não dói

Se fosse verão, nestas últimas duas semanas, e um curador alemão - um curador, digamos, da próxima Bienal de Arte Exótica de Berlim - chegasse em Florianópolis desinformado (soube da cidade segundo o New York Times, vamos imaginar) mas procurando saber o que anda acontecendo na ilha, assim, em termos de discussão e arte mais extrema - repito, é tudo hipotético - certamente ficaria muito decepcionado mesmo. O curador alemão abriria os nossos jornais, é provável até que faria uma visita no CIC, talvez visitasse alguns espaços de arte, talvez procurasse uma revista com publicações de críticos locais, mas no fim acabaria feliz no Mercado Público experimentando frutos do mar, é certo, de bermuda e havaianas.

O curador alemão não estaria de todo com a razão, mas também não teria culpa, coitado. Está meio impossível saber o que acontece de relevante na cidade em termos de arte e discussão, assim, mais extrema. Somos todos transparentes, afinal. A coisa toda se dilui no mar, nenhuma superfície refrata.

Há algumas semanas, aqui, o historiador (e amigo, não posso esconder) Fernando Boppré, em um exercício de análise sobre a situação do cinema em Santa Catarina, procurou apontar o buraco que existe na história [rasura] do audio-visual produzido por aqui. Boppré nomeia Deus e Diabo, digo, tanto os esforços no sentido de tornar visível um pensamento sobre o cinema - e, em última análise, tornar visível o próprio cinema, o que já é alguma coisa - quanto instituições que simplesmente ignoram qualquer responsabilidade sobre o assunto, leia-se: Cinemateca e MIS. Do MIS não se espera nada, está morto faz tempo. Da Cinemateca, sim, se espera, pois é apenas meio morta. Resultado, até onde sei: meia dúzia de tapas nas costas - tapinhas - e sobretudo um silêncio tumular. Eu diria, em resumo: um tapinha não dói.

Uma semana depois, no Espaço Arquipélago, pela programação do Bloomsday, o ERRO Grupo (que tem como integrantes outros amigos, não posso esconder) realizou uma performance, no mínimo, polêmica. A performance consiste em leiloar performances - dentre elas, um roubo de obra, pichações em alguma parede do bairro e uma cópia de Cildo Meirelles, vendida como inédita - e ainda incluiu, nesta edição, algumas marteladas que danificaram uma parede do Espaço. Até mesmo um pombo da Praça XV teria coisas a dizer a respeito da performance, mas por que ele daria sua opinião em meio a tantas complicações? O caso da falsidade da obra de Cildo é sintomático: alguns atores do grupo repetiram cinco ou dez vezes que se tratava de uma obra inédita, mas ninguém se manifestou.

Uma semana depois, em uma intervenção talvez mais discreta - menos direta - quatro artistas de outras cidades abrem uma exposição no Museu Victor Meirelles, "Gabinete", provavelmente a exposição de Florianópolis que mais me entusiasmou nos últimos meses, embora isto não seja parâmetro pra nada. Por um limite da arquitetura, talvez, as exposições no Victor Meirelles, nos últimos anos, a meu ver, apesar de quase sempre terem muita qualidade, são pautadas por certo comportamento. "Gabinete", diferente, movendo conceitos da baixa cultura, pornografia, discurso barato - o Veado Molhado da exposição não deixa de ser o próprio Victor Meirelles, só não vê quem não quer - parece que consegue conciliar o limite com a inadequação. Na conversa com Rafael Campos Rocha, que aconteceu no dia da abertura, aliás, o artista disse barbaridades muito divertidas, como: "Eu quero que os curadores me amem e me convidem para a próxima Bienal" ou "Mano Brown é um dos artistas mais interessantes do país". Pode-se dizer qualquer coisa, nada acontece.

Nossa cidade, vamos lá, tem um curso de letras, dois cursos de cinema, mais dois de teatro, outro de artes visuais, nossa cidade é uma cidade letrada, há muitos críticos, pessoas com espírito crítico, há escritores de todos os tipos, a pós-graduação em literatura forma não sei quantos doutores por ano, não é pouco, há artistas, centenas de professores, milhares de alunos que estudam arte todos os dias, mas ninguém - e nem o pombo da praça XV - se manifestou publicamente a respeito de nenhum dos três acontecimentos. Nem no orkut, no twitter. O que existe, e isto existe demais, é muita gente emitindo opiniões meio surdas, o que já é alguma coisa, mas não é muito. De fato, não é muito. Aliás, é quase nada. As coisas acontecem como se nada estivesse acontecendo.

Se a arte não é o desvio do consenso, se não deve carregar certo peso da diferença, não sei o que mais pode ser. Fomento de belas artes, talvez, ou crônica de circunstância, algo assim. Se uma instituição ou qualquer lugar que deveria ser crítico não tem capacidade de suportar uma diferença, uma diferençazinha, digamos, e não consegue agregar o mínimo de valor a ela, não consegue movê-la em direção a algum lugar, podemos fechar as portas mesmo e assumir o discurso médio. Nem a Folha de São Paulo conseguiria viver sem atrito. Nem a Rede Globo.

Quer me parecer óbvio que o discurso crítico em nossa cidade é bem desestimulante, pra dizer o mínimo. Nosso imaginário, mesmo o da arte - principalmente, talvez? (seria desastroso pensar sobre isso) - ainda parece ser o do funcionalismo público, em que tudo se resolve na janta. O anonimato, nisso, não é de nenhum modo circunstancial. As mínimas iniciativas de debate aberto não encontram qualquer refração. É que, dizem, há muita luz em Floripa. Então o que resta mesmo é este gesto meio esquizofrênico de debater sobre a inexistência do debate; que ainda considero melhor do que a representação. Enquanto isso vamos vivendo de tapinha nas costas. Não dói. O prestígio fica sendo a mais-valia do agregado. A estas horas, aliás, o curador alemão, muito esperto, já deve ter percebido tudo.

Atualização (15/07): os comentários considerados como ofensas pessoais foram apagados; caso continuem, todos os comentários serão moderados.

Sexta-feira, Julho 10

#retard

galera, sipá, é nóis no tilt, @victordarosa, etc

Habermas e a minha mãe

Habermas só acredita na teoria da ação comunicativa porque não conhece a minha mãe. Vamos concordar. Minha mãe é a pessoa mais fofoqueira que eu conheço. E a fofoca, na boa, é a maior prova de que não existe comunicação estável. Depois, a fofoca não vai acabar nunca. É humana, demasiada humana, como diz - aliás - a minha mãe. Não tem solução: o sujeito fofoqueiro é movido por um desejo incontrolável de narrar - aliás, Benjamin também não conheceu a minha mãe. Quem ouve a fofoca, por sua vez, o segundo fofoqueiro, é movido por um desejo incontrolável - que é o desejo da própria imaginação, afinal - de deformar a declaração narrada. Barthes - que não conheceu a minha mãe, mas é como se tivesse conhecido - não me deixar mentir sobre isso: quem copia, de fato, deforma. A fofoca é uma narrativa performática porque atua não apenas na comunicação de um sentido, mas também - e sobretudo - na deformação de significantes. Em uma definição, a singularidade da fofoca consiste em mínimos desvios da forma. Quer dizer, se trata de um processo de linguagem em que, de modo extremo, você já tem o referencial perdido desde a origem, desde a escuta. E ficamos enfim nesta deliciosa tautologia do erro.

Quinta-feira, Julho 9

Pero Vaz, sai do chão

O Circuit Club fechou e os donos escreveram uma carta bem engraçada e estúpida. Vale a pena ler, de verdade, aqui. Aviso: ler com humor, cautela e maldade. De fato, não há uma frase que não seja digna de análise - as boas intenções neo-coloniais de Fabio Roncatti e seu amigo londrino, por exemplo, são interessantíssimas, assim como sua comparação entre "boate gay" e "casa de prostituição", uma pérola (queria eu ter tempo pra comentar frase por frase!) - mas há um momento em que a carta se destaca nas alturas: Sabemos que a população Florianopolitana [sic] é predominantemente de origem Européia [sic], o que nos dá esperança de que em outros moldes, e corrigindo as falhas mais básicas, um empreendimento do gênero possa ser bem sucedido. Quer dizer, primeiro, o sujeito assenta um preconceito em cima de um equívoco, e vice-versa, em uma frase só. E, depois, bród, qualquer pessoa que vai nas Devassas da vida já consegue sacar que a galera de Floripa gosta mesmo é de Dança da Motinha. Quando toca, a galera sai do chão. Inclusive os europeus mais refinados e também os (bons) DJS "mais modernos e recentes" - que não fariam sequer uma farpa de sua música sem qualquer aula de percussão da mais bárbara, digamos assim - todos eles também saem do chão. Aliás, até Pero Vaz de Caminha saiu do chão quando viu a galera dançando a Dança da Motinha - versão pré-moderna - em terra desconhecida. Mas voltando: no final da despedida - durante toda a carta é assim, embora o final seja sempre o lugar mais desesperado e, portanto, mais flagrante - o sujeito deixa claro, sem querer, mas muito claro, claríssimo, de fato, que está triste mesmo é com os euros que perdeu. Cito: é extremamente natural alguém que investiu suas economias em uma cidade e foi tratado muito mal sentir-se desta forma. O resto é, como dizem, pura especulação.

Quarta-feira, Julho 8

"Futebol catarinense assume campanha da RBS"

Um limite ameno para toda diferença

Vamos concordar que não concordamos em nada.

Terça-feira, Julho 7

Um argumento interessante

Quando o sujeito começa a se secar com a toalha de rosto é porque o caos se instaurou geral. Mas a única dificuldade de se secar com uma toalha de rosto está no momento em que chega a parte das costas. Porque você precisa pegar as duas pontas da toalha, é evidente, mas precisa também esticar os dois braços pra fazer o movimento de vai-e-volta - esticar os braços era um gesto inconsciente, agora percebo - e a toalha de rosto não tem extensão suficiente. Então você precisa, agora, dar um jeito de fazer o movimento de vai-e-volta, mas sem os braços esticados. Secar os cabelos, braços, pernas, etc e tal, é bem fácil, mas secar as costas não.

E lavar toalhas morando sozinho também não é nada fácil. Você tem uma, duas, no máximo três, é muito pouco pra jogar na máquina. E não gosto nada de levar pra minha mãe. É um modo que ela descolou pra me tornar dependente: lavando minhas toalhas. Não curto. Agora uma amiga vem me dizer que lava com o restante das roupas. Jeans, meia, calcinha, toalha, tudo junto. Eu não sabia que era possível. Alguma das partes deve sair prejudicada, é certo. Mas pense comigo, ela argumenta, te parece mais racional lavar a toalha junto com jeans ou se secar com a de rosto? Não deixa de ser um argumento interessante.

Segunda-feira, Julho 6

Um argumento difícil

Vá provar para o próprio pai, sendo ele um machista histórico e sendo você filho único, depois que você saiu de casa sem o seu consentimento, vá provar que lavar roupa é crescimento humano, vá.

Uma notícia falsa

No final do ano passado foi divulgada uma notícia falsa em toda a imprensa esportiva catarinense - a de que o Avaí subiu para a primeira divisão do futebol brasileiro. Na verdade o clube mané apenas ganhava o direito de jogar entre os grandes. É ooooutra coisa.

Domingo, Julho 5

A culpa é de quem?







"Polêmico, o escritor Richard Dawkins diz na Flip que Deus não existe"

Aham, tá bom.