Quinta-feira, Maio 24

Poesia brasileira em Berlim


Acaba de sair, no site do Instituto Goethe, uma matéria minha sobre o Festival de Poesia de Berlim de 2012, que terá participação brasileira em uma Oficina de Tradução. A matéria conta com depoimentos de Ériza Zíngano, Marcos Siscar e Ricardo Aleixo, que irão participar do projeto, e também de Ricardo Domeneck, um dos curadores desta edição da Oficina. Para ler, aqui.

Segunda-feira, Maio 21

Biblioteca de Babel

 Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense


A biblioteca central da UFSC, na verdade, pra quem ainda não entendeu, é um lugar de encontro, descontração, paquera, conquista e muita azaração; ou seja, não é exatamente um lugar pra estudar. Gente falando no celular como se estivesse no programa Altas Horas discutindo se o Neymar deve ou não jogar na Europa já virou uma cena corriqueira. Computadores de pesquisa sendo usados para olhar o facebook também. De uns tempos pra cá, antropologicamente falando, tenho presenciado coisas ainda mais interessantes.

Dia desses, por exemplo, na prateleira de economia, bem do lado da mesa onde eu estava estudando, acompanhei todo o processo de um xaveco: desde o approach até o convite pra “conversar ou tomar um drinque em lugar mais reservado”. Há também calouros que, com os hormônios em estado de ebulição, mesmo com a luz do dia entrando pelas janelas e revelando até aos mais incrédulos todos os segredos daqueles corações juvenis, se beijam de língua como se não houvesse amanhã. Seja nos pufes, atrás das estantes ou até mesmo nas mesas de estudo, quando os livros são esquecidos em uma página qualquer, não há qualquer limite para a descoberta do amor.

– Você vem sempre aqui?

– Só nos fins de semestre...

O ambiente da biblioteca está tão parecido com o El Divino Lounge que a nova reitora, assim que assumiu o cargo, encaminhou um ofício pro Ministério da Educação solicitando a troca da máquina de café por um barril de chopp. O processo ainda está em transição, mas tal decisão, e nem poderia ser diferente, já está causando muita polêmica e ainda mais burburinhos pelos corredores: uns acham que deve ser chopp da Brahma; enquanto outros defendem que o chopp deve ser da Eisenbahn, proposta logo contestada pelo primeiro grupo, que considera a escolha “um sintoma preocupante da elitização das federais”.

Mas agora falando sério.

A biblioteca da UFSC, em muitos aspectos, poderia ser comparada com a Biblioteca de Babel, ou seja, “uma confusão de línguas...” Por outro lado, a comparação com a biblioteca de Jorge Luis Borges não é justa – não é justa com Borges, no caso – pois na biblioteca apresentada no conto do escritor argentino é possível encontrar todos os livros, até aqueles que não foram escritos. Na biblioteca da UFSC, além de não ter os livros que jamais foram escritos, não tem também os que foram escritos nos últimos 20 anos e principalmente aqueles que a gente precisa. Quero dizer com isso, o que não é nenhuma novidade, que a biblioteca da UFSC está defasada faz tempo.

Pensando nisso, gostaria de fazer, nestas últimas linhas, uma sugestão à nova reitora, em quem eu votei ano passado, aliás. Por que não cobrar entradas, já que virou festa, e reverter todo o dinheiro arrecadado para a manutenção do acervo? Homens pagam R$10 e ladies free até meio-dia. Estudantes, naturalmente, terão direito a meia-entrada. Toda sexta-feira pode ter um evento especial: dança afro, roda de choro ou então um DJ estrangeiro pra tocar no hall de entrada. Tem que pensar em uma programação bem animada. Café em dobro enquanto o barril de chopp não chega, pois a gente sabe como são essas burocracias. Garanto que dá certo. Na verdade, não tem erro. A biblioteca da UFSC já mostrou que tem vocação pra isso.

Quarta-feira, Maio 16

Hino à dentada

Brito Broca, em parte de sua crônica sobre a vida literária brasileira do começo do século XX, conta sobre a vida boemia de alguns escritores. Sempre com certa restrição, por ser um sujeito reservado e não gostar muito de festas, Broca deixa transparecer, por exemplo, que lhe surpreende o fato de que alguns desses bêbados tenham realizado obras apreciáveis. Tudo podia se tornar um versinho espirituoso, um trocadilho. “Alguns boêmios pareciam mais empenhados em deixar anedotas do que obras”, diz ele.

Por outro lado, o crítico não deixa de reconhecer que algumas graças tinham o seu valor. Uma delas é o soneto que Emílio de Menezes, um dos grandes piadistas daquele tempo, dedica a Manuel Lebrão, dono da tradicional Confeitaria Colombo. No poema, depois de uma dúzia de voltas e outra dúzia de rimas, como todo malandro sabe fazer como ninguém – se não as rimas, pelo menos as voltas – Emílio de Menezes chega ao ponto: pede uma grana emprestada... Na caricatura, como se pode imaginar, está Emílio de Menezes, e não Brito Broca. Abaixo, o poema.

Requerimento engrossativo mas sincero – Hino à dentada

Lebrão! Tu sabes que a Confeitaria
Colombo é verdadeira sucursal
De nossa muito douta Academia
Mas sem cheiro de empréstimo oficial.

Cerca-te sempre a grande simpatia
De todo literato honesto e leal
E tu te vais tornando dia a dia
O Mecenas de todo o pessoal.

Nisto mostras que és homem de talento
Que não cuidas somente de pasteis
Nem de lucros tirar cento por cento.

Atende, pois, a um dos amigos fiéis
Que está passando por um mau momento
E anda doido a cavar trinta mil-réis...

Segunda-feira, Maio 14

Ô Carolina isso é muito natural

Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense





Como todo cidadão brasileiro médio, com um computador na mão e umas ideias erradas na cabeça, eu também dei uma breve passada pelas fotos em que Carolina Dieckmann exibe algumas de “suas vergonhas”, para recordar a carta em que Pero Vaz de Caminha se refere às índias brasileiras quando chegou a nossa terra.

De fato, uns três minutos depois que as fotos foram divulgadas, o assunto dominou as redes sociais, passou pelas melhores delegacias cariocas, então chegou aos programas de fofoca até encontrar o lar da família brasileira. Neste momento, os pais e filhos, movidos pela curiosidade e também pelos instintos mais primitivos, ao som de “Carolina”, de Seu Jorge, sentaram ao lado do computador e algum deles soprou três ou quatro palavras impuras ao Google, que terminou de fazer o trabalho sujo.

A discussão, que durou a semana inteira, alcançou as esferas éticas e judiciais, assim como despertou juízos estéticos e críticos, movendo pessoas de todas as idades, opções políticas e classes sociais. Alguns diziam que Carolina vacilou quando deixou seu computador nas mãos de um estranho; outros reclamavam que não se pode mais ter intimidade no Brasil [?] e ainda acusavam o chantagista de não ter o que fazer; teve um grupo que optou apenas por apreciar as imagens, geralmente dando os parabéns à atriz; e finalmente, em um comentário isolado, uma moça passou os contatos de sua depiladora.

É que as fotos em que Carolina exibe os pelos pubianos são um capítulo à parte de toda a polêmica. Luana Piovani, que já foi fotografada sem calcinha na Academia Brasileira de Letras, fez uma dezena de afirmações sobre as imagens de sua colega de trabalho. Em resumo, Piovani disse que “o corpão está ótimo”, mas “merecia uma aparada”. Por sua vez, Paulo Coelho defendeu os pentelhos de Dieckmann: “Sempre acho que homem que gosta de mulher depilada é pedófilo em potencial”, disse o mago brasileiro. Enfim, de repente você acorda em uma sexta-feira de sol, abre o jornal durante o café da manhã e percebe que os seus próprios pentelhos são o tema mais importante de uma grande controvérsia nacional. Contando assim ninguém acredita.

No entanto, de todas as imagens de Carolina Dieckmann, a mais misteriosa e intrigante, em minha opinião, e digo isso com toda sinceridade, é aquela em que a atriz aparece vestida de Mulher Maravilha. Por que diabos esta foto, tão destoante do conjunto, foi divulgada ao lado das outras? O que ela estava fazendo na mesma pasta secreta? A princípio, pelo menos em minha interpretação doentia, o traje de super-heroína parecia revelar alguma fantasia sexual meio estranha da atriz, mas logo depois descobri que a foto não era inédita; ela já tinha sido divulgada pela livre e espontânea vontade de Dieckmann. Seja como for, tem alguma coisa mal contada nessa história.

No fim das contas, acredito que Carolina Dieckmann, que estava meio sumidinha, se saiu muito bem disso tudo. Até mesmo chamada de “Scarlett Johansson brasileira” pela imprensa internacional ela foi. Se o vazamento de suas fotos foi uma estratégia de publicidade, tese que muita gente vem defendendo, méritos pra ela e sua equipe, pois foi uma estratégia muito bem executada; em caso contrário, se a atriz realmente foi chantageada, se toda a história que Carolina contou é verdadeira, méritos também, pois as fotos mostram que a moça, mãe de família que afinal já passou dos trinta faz algum tempo, continua muito bem.

Segunda-feira, Maio 7

Tradicional Família Mané

Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense

Se fosse pra dividir a casa dos meus pais da mesma maneira como fizeram os portugueses e espanhóis quando assinaram o tratado de Tordesilhas, a divisão seria feita com os avaianos de um lado e os alvinegros do outro. Minha mãe e meu irmão são avaianos roxos; enquanto meu pai e a namorada do meu irmão são alvinegros comportados, embora não tenham sangue de barata. De minha parte, pra evitar problemas familiares e sofrimentos desnecessários, permaneço imparcial na história.

Em semana de clássico mané, portanto, a casa dos meus pais fica mais agitada do que a Faixa de Gaza. E nesta última semana, de fato, com 15 títulos estaduais pra cada lado e uma final que não acontecia desde 1999, com o Figueirense fazendo uma campanha exemplar e o Avaí se superando nas últimas rodadas, a coisa está ultrapassando todos os limites. Até na hora de estender as bandeiras nas janelas já deu confusão.

Só para dar uma ideia do ineditismo desta final lá em casa, recorro a uma estatística que não interessa a ninguém, como todas as estatísticas. Meu irmão e a namorada começaram a namorar em 2004, exatamente cinco anos depois daquela final de 1999, quando o Figueirense ficou com o título vencendo o maior rival. Ou seja, esta é a primeira decisão entre Figueirense e Avaí que assistem juntos, que bonito. Na verdade, meu irmão já prometeu que não verá as finais ao lado da namorada, pois ele fica bem nervoso e é capaz até de chorar. Às vezes ele prefere nem assistir aos jogos. Se o namoro passar por essa, não sei o que pode acontecer.

Na verdade, a rivalidade lá na casa dos meus pais acaba se refletindo também nas atividades domésticas. Por exemplo, faz uma semana que minha mãe só prepara bife de fígado acebolado no almoço, que é justamente o prato preferido do meu irmão, motivo de repetidos protestos do meu pai, naturalmente. Meu pai, por sua vez, respondeu a provocação se recusando a levar minha mãe de carro no supermercado. Entre o meu irmão e a namorada a situação também não é muito diferente. Até pijama do Figueirense ela comprou. O pijama, aliás, mereceria um parágrafo inteiro, mas não vou cometer tamanha indiscrição.

Minha mãe é uma torcedora interessante. No fundo, ela não sabe nada de futebol, mas é muito mais bem informada do que todos lá em casa, pois escuta programas esportivos todos os dias na CBN enquanto lava a louça do almoço. De vez em quando ela vem com uma informação diferente: “
sabia que o termo Avaí vem de uma batalha que aconteceu na Guerra do Paraguai no final do século XIX e não tem nada ver com o arquipélago de Hawai, como dizem?” Além do mais, minha mãe tem o hábito bem curioso de secar o Figueirense em reprises. Teve um dia que meu pai chegou de surpresa em casa e flagrou minha mãe, em plena segunda-feira, revendo um jogo do Figueirense com o mesmo afinco do fim de semana. O fato foi amplamente divulgado.

Meu pai é um pouco diferente. Já foi mais apaixonado por futebol, acho que aos poucos foi se desiludindo com o esporte, mas a minha mãe ficou tão insistente com o Avaí de uns tempos pra cá que ele se viu obrigado a voltar a torcer pelo Figueirense. Não para deixá-la feliz, em todo caso, e sim pra recuperar sua posição ameaçada de homem da casa. Grande parte das esperanças do meu pai está depositada nesta final, pois uma vitória do Figueirense deixaria minha mãe calada por uns dois meses, pelo menos, mas ele sabe que clássico é clássico, como diriam os deuses do futebol, e vice-versa.

Segunda-feira, Abril 30

Crônica da janela do meu quarto


Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense



Em menos de um mês, através da janela do meu quarto, pude presenciar – não foram exatamente boas oportunidades – três cenas de violência em um bairro de classe média de Florianópolis. Era como se a janela, por um momento, passasse a ser uma enorme televisão ligada em algum noticiário policial ou mesmo no jornal das oito. A vida imita a arte...

Na primeira delas, um rapaz caiu do oitavo andar, três andares acima do meu. Não sei se por acidente ou vontade própria. Quando percebi, na verdade, já havia ambulância, cinegrafistas, muitos curiosos, uma moradora tentando estapear um dos cinegrafistas – ela não queria que o prédio fosse filmado – e uma mulher chorando. A ambulância, pelo que pude perceber, continuou ali por muito tempo, pois já não havia mais motivo pra correr.

Alguns dias depois, às cinco da manhã, no melhor do sono, acordei com o barulho do choque de um carro no poste; e da mesma janela, poucos segundos depois, foi possível acompanhar seis garotos embriagados saindo do carro – seis! – para continuar o trajeto a pé. Parecia parto de coelho. Um deles estava com o nariz sangrando; um segundo parecia bem preocupado; e outro, curiosamente, não parava de rir. “Vai sujar pra nós”, alguém disse. O guincho chegou ao local, segundo um dos porteiros do meu prédio, que é um excelente informante, em torno das onze da manhã.

O mais curioso nesta madrugada foi que, no momento do acidente, quando acendi a luz e olhei da janela, várias luzes de outros apartamentos ao redor também se acenderam quase juntas. Eram provavelmente os mesmos curiosos da semana anterior que, neste caso, ofereciam uma espécie de espetáculo involuntário. Várias luzes acendendo e depois apagando todas sincronizadas. Era bonito. Parecia até um sonho.

A terceira cena, e última, aconteceu na semana passada. No momento em que eu revia a bela vitória do Vasco sobre o Flamengo, do Fantástico, escutei uns gritos desesperados de uma mulher e depois um tiro, mas a coisa não foi tão grave quanto parece. Um rapaz tentou roubá-la, ela reagiu e foi mordida na mão. Os gritos, portanto, foram conseqüência da mordida; e o tiro, disparado por um policial à paisana, foi direcionado para o alto. Quando olhei na janela, a mesma de sempre, meu cineminha real, ainda deu tempo de ver o rapaz desaparecendo na noite – “a fuga do meliante”, diria um repórter policial – e a mulher sendo socorrida por alguns moradores.

Os gritos, aliás, foram ouvidos apesar do barulho de um caminhão de lixo que estava passando pela rua. E a mordida na mão, por sua vez, foi motivo de piada entre alguns vizinhos, que julgaram o assaltante muito amador. Na verdade, os assaltantes amadores são até mais perigosos, pois são inconseqüentes e às vezes ficam mais nervosos do que as vítimas. Por outro lado, os assaltantes mais profissionais, digamos assim, geralmente obtém sucesso no assalto. Outra verdade é que não havia graça nenhuma naquilo.

Mas, afinal, o que há de tão incomum e assustador nestas cenas? Nada. É possível assistir, em qualquer momento, até mesmo na hora do almoço, coisas bem piores na televisão. Pra nós, que estamos nos acostumando a ver imagem de gente sendo morta com 50 tiros de metralhadora enquanto comemos bife com batata frita, uma mordida na mão não assusta nem criança pequena. A diferença é que agora a violência passou a ser delivery. E minha janela, em todo caso, não é uma televisão.

Segunda-feira, Abril 23

Uma rua de duas mãos

Por Victor da Rosa
crônica publicada no Diário Catarinense

Durante algum tempo tive um amigo – ainda hoje não sei se posso chamá-lo assim – que morava na rua. Convivemos, esporadicamente, durante mais de dois anos; e depois, do nada, ele sumiu. Seu nome é Pablo, ele deixou a cidade de Santos por algum motivo que nunca ficou muito claro pra mim – em Santos, teve casa, emprego e mulher – e chegou a Florianópolis atraído pelas praias e com perspectivas de ganhar dinheiro trabalhando no verão. Depois de uma série de problemas, no entanto, Pablo acabou na rua. Pelo menos, em resumo, foi esta a história que ele contou pra mim.

Eu não tenho tantos motivos pra duvidar das coisas que Pablo me dizia. Pra começar, diferente da maneira como geralmente acontece, fui eu quem lhe procurei. No bairro de Coqueiros, enquanto esperava um ônibus, pude presenciar Pablo ironizando uma senhora (aparentemente abonada) de maneira muito elegante. Após ganhar poucos centavos, Pablo disse a ela – com a expressão firme, mas tranqüila, e um acentuado sotaque paulistano – que só aceitaria a esmola se realmente não fizesse falta.

Era como se, através da ironia, Pablo ainda quisesse se colocar na situação como alguém superior. Talvez fosse uma forma de resistência; um truque pra recuperar alguma dignidade. Passei a vê-lo como alguém que entra em um jogo sabendo que está perdido, mas ainda tem segurança suficiente pra rir de si próprio. Fui falar com ele em seguida. No fim da conversa, expliquei onde eu morava, ofereci algum dinheiro – disse que não faria falta – e deixei o número do meu celular. Percebi que Pablo, além de inteligente, tinha uma caligrafia bonita.

Passei a lhe dar comida, roupas que não usava mais, alguns objetos que poderiam ser úteis e às vezes oferecia uma rodada de cervejas em algum boteco no bairro. Fiquei surpreso quando ele negou duas calças e um cobertor, alegando, obviamente, que não tinha onde guardar; afinal, toda sua vida devia ser levada em uma mochila pequena. Em troca, Pablo trazia algumas coisas que encontrava ou ganhava pela rua – uma vez apareceu com dois improváveis bilhetes para um show de pagode – e ficava ofendido quando eu não aceitava. Em resumo, nossos encontros passaram a ser uma espécie de reedição dos primeiros encontros entre índios e portugueses no tempo da conquista da América.

A breve amizade com Pablo me fez pensar sobre algumas coisas. Primeiro, passei a ter dúvidas sobre qual é a melhor maneira de tratar um morador de rua quando ele quer dinheiro, por exemplo. Dar dinheiro não resolve nada, de fato, mas não dar também não resolve. A melhor opção, claro, é não pensar sobre o assunto; ou então se convencer com pressa de alguma campanha, algo como “quem dá esmola não dá futuro” ou qualquer tolice assim. Seja como for, eu tentava ajudar Pablo em pequenas coisas porque lhe considerava um sujeito legal, embora jamais tenha lhe convidado para tomar um café na mesa de minha casa.

Depois, e isto deve assustar um pouco, eu pensava que a fronteira que nos separa de um indigente – nós, sujeitos de classe média – não é tão segura assim. No fim das contas, embora Pablo chegasse a ficar um mês sem tomar um banho decente, passei a achar que éramos duas pessoas parecidas; e eu tinha também a sensação de que ele podia deixar aquela vida a qualquer momento, mas não queria. Aos poucos fui percebendo que Pablo gostava de viver na rua; em sua cabeça, a rua era um lugar que oferecia perigo, mas também liberdade. Talvez a mesma liberdade que tenha feito Pablo sumir sem deixar notícia.

Segunda-feira, Abril 16

Volta à Ilha em 48 horas

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Por Victor da Rosa
crônica para Diário Catarinense






Uma das graças de receber amigos de outros lugares é que você acaba se obrigando a visitar lugares que não visitaria sozinho. Uma das graças ou um dos pesadelos, depende. Faz umas semanas, dois amigos vieram a Florianópolis pra me ver, descansar e fazer turismo, não necessariamente nesta ordem. Um deles é poeta; e o outro, digamos, é um turista profissional. O que é um turista profissional? É aquele sujeito que calcula uma viagem romântica, por exemplo, de acordo com as fases da lua. “Seria ideal nesse fim de semana porque seriam dias de lua cheia, compreende?”, ele me perguntou. Eu disse que compreendia. De fato, havia um roteiro pronto para que eu pudesse, eventualmente, avaliar.

O roteiro programava toda a sexta-feira – ficou determinado, sem que eu pudesse emitir qualquer opinião, que eu teria que acordar antes das 8h para acompanhá-los em todo trajeto – e todo o sábado também. O roteiro de um turista profissional, pra quem não sabe, possui uma sequência incrível de informações, distribuídas através de uma variação de negritos, itálicos, cores para diferenciar situações, dados históricos, datas, preços, horários, tamanhos de fontes, números de telefones, endereços, curiosidades, itinerários, muitos detalhes e outras particularidades, como se fossem golpes ininterruptos produzidos por um boxeador peso-pesado alguns segundos antes de nocautear seu adversário; ou seja, uma programação assim deixa qualquer pessoa exausta só na leitura. Mas vamos ao roteiro.

Na manhã de sexta, estava programado que daríamos um passeio pelas praias do Norte da Ilha, começando por Santo Antônio de Lisboa, lugar em que, de fato, chegamos às 8h25m, e terminando com um almoço na Costa da Lagoa – “sequência de camarão (ao bafo, milanesa, etc) no restaurante Lagoa Azul” –, depois de passar por Jurerê, Daniela, Forte, Moçambique e Rio Vermelho. Tudo isso estava indicado no roteiro e tudo isso realizamos em mais ou menos seis horas de muito passeio, realmente; sendo que os dois desciam em todas as praias para tirar umas fotos e colocar o pé na água. Depois do almoço, voltamos pela Barra da Lagoa e passamos também pelas “praias selvagens”, com destaque para a Praia Mole, “a mais sexy da ilha”. Era um lindo dia de sol.

O único ponto do roteiro que questionei foi o programa de sexta à noite. Havia três opções: Armazém Vieira, Café Cancun ou Café Matisse. Fiquei curioso pra saber qual problema de saúde tem a pessoa que sugeriu estes lugares aos meus amigos, mas depois acabei esquecendo de perguntar. Argumentei que o Café Matisse – aliás, nem sei se voltou depois da reforma do CIC – tinha recebido o apelido de Café Chatice, por motivos óbvios. Aliás, no roteiro, o Café Matisse estava descrito como um “point de artistas, jornalistas e escritores”, o que me deixou, além de contrariado, também muito surpreso. Depois das ilusões desfeitas, os dois preferiram aproveitar a sexta-feira pra dormir.




No sábado de manhã, bem cedo, fomos em direção ao Sul, minha região preferida. O roteiro previa, além de um passeio na Ilha do Campeche, também uma visita à Associação dos Pescadores da Praia da Armação, o que me pareceu um pouco descabido, mas no fim eles acabaram esquecendo essa parte. Voltamos ao Centro em tempo de tirar umas fotos ao redor da figueira e pegar o Museu Cruz e Sousa aberto, certamente o momento de maior decepção da viagem. Eu revelei aos meus amigos que, por prudência e pudor, eu jamais havia entrado no Museu, e agora me sinto arrependido por ter traído a minha intuição. No sábado à noite, finalmente, fizemos um programa que não estava no roteiro, algo impossível de ser revelado aqui.

Segunda-feira, Abril 9

Dicionário de Frases Feitas

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Por Victor da Rosa
crônica para Diário Catarinense




No último mês, período em que infelizmente fiquei longe deste espaço, tive que passar por uma situação difícil, coisa que todo mundo já passou na vida ou vai passar algum dia, com certeza – o leitor, para acompanhar meu raciocínio, pode imaginar qualquer uma das cinco situações seguintes, tanto faz: 1) perda de um ente querido; 2) pé na bunda da namorada; 3) demissão no emprego; 4) queda do time de futebol para a segunda divisão; ou 5) início da calvície – e vou dizer que descobri algo com a experiência. Descobri que as pessoas, para consolar a gente, quando não têm absolutamente nada pra dizer, elas recorrem às frases feitas.

Claro que as pessoas não fazem nada disso por mal. Muito pelo contrário: pior é que elas fazem por bem, cheias das boas intenções. É que tem momentos na vida em que não há mesmo o que dizer. O teu amigo ficou careca, e aí? Paciência. No máximo, você pode dar um pente pra ele de presente, tirar uma onda, fazer o sorriso do rapaz retornar das férias. Mas na hora de dizer alguma coisa que vai acabar de uma vez por todas com a tristeza do rapaz, você pensa e não vem nada. Afinal, nem tudo na vida se resolve com uma pesquisa no Google. E é verdade também que ficamos um pouco apavorados na hora da tristeza. Ninguém nos ensinou a lidar com ela. E é aí que recorremos à amiga inseparável e conselheira de todas as horas: a frase feita.

Na verdade, minha descoberta nem é lá uma grande descoberta, mas com ela pude montar um dicionário muito útil de clichês, dicionário que intitulei “Frases para dizer aos amigos mais próximos que passam por momentos difíceis na vida”. A maioria das frases feitas, segundo minha pesquisa, diz respeito ao tempo: “Você tem que dar tempo ao tempo”, “O tempo é o melhor remédio”, “Vai passar”, “Nada como um dia após o outro”, “Depois da tempestade sempre vem a calmaria”, dentre outras. Na verdade, a última não se diz com tanta freqüência talvez porque seja muito longa; mas as outras, sim. “Vai passar”, por sua vez, talvez por ser a frase mais curta de todas, sempre vem acompanhada de dois tapinhas nas costas. O tapinha nas costas é a representação corporal da frase feita. Em tempo: detesto tapinha nas costas.

Algo curioso sobre essas frases acima citadas é que todas dizem exatamente a mesma coisa: elas dão a esperança de que o futuro será legal, mas reconhecem que o presente, de fato, está difícil. Mas têm também aquelas frases – as piores de todas – que nos fazem reviver o passado. “Aqui se faz, aqui se paga” é uma frase feita bem freqüente, como toda frase feita, e verdadeira também, assim como “A gente tem que se responsabilizar pelos nossos atos”, que significa a mesma coisa que a anterior. Ambas são ditas geralmente pelos nossos pais. “Não adianta chorar pelo leite derramado”, por outro lado, considero a mais equivocada das frases feitas, pois ninguém chora porque “adianta”, e sim porque está triste.

Mas se você quiser dar uma floreada no clichê, ou seja, se você preferir dizer coisas que pareçam mais importantes, a recomendação é recorrer às frases dos grandes poetas e filósofos, pois eles também têm seus momentos de fraqueza. Por exemplo, esta frase feita do Byron: “Os espinhos que te feriram foram produzidos pelo arbusto que você plantou”; ou esta do Schopenhauer, que pode dar um trabalhinho pra decorar: “A glória é tanto mais tardia quanto mais duradoura há de ser, pois todo fruto delicioso amadurece lentamente”; e até mesmo Nietzsche sucumbiu às delícias da frase feita, e com rima ainda por cima: “O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte”. Todas têm o mérito de servir pra qualquer situação.

Quinta-feira, Abril 5

Muita maldade

Fernando: Bebo há quatro dias e estou doente. Grande turma. Muito veado. Muita gente séria. Muita mulher feia. Muito concretista. Muita sofisticação. Muita inteligância.

Glauber Rocha, em uma carta de 1957, publicado no volume Cartas ao Mundo; enviado pela Bruna, minha irmãzinha que pesquisa Glauber.

Segunda-feira, Abril 2

Um ensaio no Sopro #68

Foi publicado no Sopro deste mês, o número 68 - lembro quando saiu o primeiro! - um ensaio meio longo que escrevi para a conclusão de dois cursos que realizei no doutorado. Trata-se de uma reflexão sobre uma série de textos que Flávio de Carvalho - o pintor, arquiteto, antropólogo, estilista, etc. - escreveu sobre moda, ainda na década de 50, mas que só agora, em 2010, foram reunidos em livro. No ensaio, que intitulei O homem em farrapos, procuro reconstruir esta imagem tão interessante e recorrente em seus textos sobre moda, que serve para pensar seu New Look e, na verdade, serve para também pensar toda a trajetória de Flávio, ele próprio uma figura em farrapos, fragmentada e desclassificada. Enfim, espero que possam ler e curtir o texto.



Terça-feira, Março 27

Dalí é surreal

Aos vinte e sete anos, quando cheguei em Paris, realizei, em colaboração com Buñuel, dois filmes que entraram para a história: Um cão andaluz e A idade de ouro. Depois, Buñuel trabalhou sozinho e dirigiu outros dois filmes, com o que fez o inestimável serviço de revelar ao público a quem se devia o aspecto genial e a quem se devia o aspecto tosco dos filmes que fizemos juntos.

Salvador Dalí, em Diário de um gênio, seu próprio diário, naturalmente.

Terça-feira, Março 6

Segunda-feira, Março 5

Pra esclarecer

Como recebi algumas mensagens perguntando se eu não escrevo mais para o Diário Catarinense - e como eu não tenho mais facebook também - gostaria de esclarecer que estou afastado durante um mês apenas e volto a escrever na primeira semana de abril. Enquanto isso, a colega Jacqueline Iensen fica com a coluna.

Segunda-feira, Fevereiro 27

Maldito, Benedito

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Por Victor da Rosa para Diário Catarinense








Dia desses, folheando uma edição meio velha da revista Rolling Stone que tinha como matéria de capa uma lista das “100 Melhores Músicas Brasileiras”, tarefa capaz de fazer qualquer jornalista feliz, chamou a atenção a ausência de Itamar Assumpção (1949-2003), compositor que muitos consideram um dos maiores do país. A ausência de Itamar é quase uma gafe; seria caso o músico ainda não tivesse, quase dez anos depois de sua morte, a má fama de maldito. De qualquer maneira, não deixa de ser uma dessas injustiças tipicamente brasileiras, já que muitas vezes deixamos de conhecer o que há de mais sofisticado na nossa cultura.

Itamar Assumpção fazia uma música que, sendo ao mesmo tempo solar e noturna, poderia ser definida entre o futebol e a macumba. Filho de pai de santo, jogador de futebol mais ou menos frustrado, músico autodidata, preto até o osso, nego dito, tudo isso; e mais um pouco... Em pouco mais de 30 anos de carreira, Itamar não deixou de se equilibrar sobre a corda bamba da MPB: a rigor, não fazia nem rock, nem funk, nem samba – ou seja, não vendia uma imagem de bom brasileiro – mas misturava tudo que aparecia pela frente.

Desde Beleléu e sua banda, a Isca de Polícia, disco marcante de 1980, até sua parceria com Naná Vasconcelos, já no fim de sua vida, no ano de 2003, Itamar levou aos lugares mais consequentes, se quisermos lhe dar algum rótulo, o rótulo de independente. O que parece é que sempre fez o que lhe deu na telha, como acontece com os grandes artistas, e pouco ou nada negociou com o mercado. Além de se reinventar a cada trabalho, Itamar parecia se sentir confortável na sombra. A única coisa que Itamar não abandonou durante toda a sua carreira, aliás, como Cartola, foram os óculos escuros, que variavam entre modelos mais comportados e outros mais bizarros.

Não se deve atribuir o rótulo de maldito a Itamar por conta de sua carreira relativamente curta, pois, apesar da morte precoce, aos 54 anos, o compositor sempre trabalhou muito. De outra maneira, sua música continua tendo interesse entre o público, mas para um público restrito. No ano retrasado, por exemplo, foi lançado pelo SESC de São Paulo uma caixa com todos os seus discos, chamada de Caixa Preta pelo organizador, material que recupera e ao mesmo tempo apresenta a música de Itamar para aqueles que, assim como eu, não tiveram a oportunidade de acompanhar sua trajetória em vida. Em poucos meses, o material se esgotou.

Na caixa, além de toda a sua discografia – que chegou a dez discos (sendo sete independentes) – estão também algumas gravações inéditas, apresentadas em dois CDs, e um catálogo precioso, mas não exaustivo. O nome da Caixa, aliás, não poderia ser melhor: algo resistente, como deve ser a memória de Itamar, um dos artistas mais consistentes do país; mas ao mesmo tempo algo também irônico, já que a cor da Caixa, alaranjada, cor tão solar, deve negar o próprio nome. Aliás, diante de tudo isso, é como se Itamar Assumpção dissesse, por trás dos óculos escuros e de uma calma que lhe era apenas aparente:

– Maldito, vírgula; meu nome é Benedito João dos Santos e Silva Beleléu, Vulgo Nego Dito...

UMA HISTÓRIA EXEMPLAR

Dizem que Itamar Assumpção estava atrasado pra um show, em São Paulo, e um amigo ofereceu levá-lo de moto. Era começo dos anos 1980. No meio do caminho, a polícia parou os dois. Então Itamar explicou ao policial que era músico, estava atrasado pra um show, na boa, aquele papo, mostrou os documentos, e o policial perguntou, interessado, qual o nome da banda. Era Isca da Polícia.